Oprah ganhou o prêmio Cecil B. DeMille na 75ª edição do Globo de Ouro.

Forte, contundente e emocionante.

Pode-se descrever assim o discurso de Oprah Winfrey na cerimônia do Globo de Ouro 2018. Atriz, apresentadora, produtora e CEO da própria emissora de TV, Oprah fez história na noite deste domingo (7) ao tornar-se a primeira mulher negra a ganhar o prêmio Cecil B. DeMille - troféu que celebra a obra de artistas que tiveram impacto no mundo do entretenimento.

Ao receber a honraria das mãos da atriz Reese Witherspoon, a discursou sobre assuntos espinhosos e importantes como a força das mulheres anônimas, liberdade de imprensa, o potencial transformador da representatividade negra e as trajetórias das ativistas negras Recy Taylor (2017-1912) e Rosa Parks (1913-2005).

Além disso, Oprah discorreu sem rodeios sobre a questão do assédio sexual, ferida aberta em Hollywood em 2017 – cujos desdobramentos têm ultrapassado os limites da indústria do entretenimento.

A seguir, veja os principais trechos do discurso de Oprah, cuja trajetória no cinema inclui atuações nos filmes: A Cor Púrpura (1985), Bem-Amada (1198), O Mordomo da Casa Branca (2013), Selma: Uma Luta Pela Igualdade (2014) e o inédito Uma Dobra no Tempo (2018).

A influência de Sidney Poitier.

"Em 1964, eu era uma garotinha sentada no chão de linóleo da casa da minha mãe em Milwaukee, assistindo Anne Bancroft entregar o prêmio de melhor ator na 36ª edição do Oscar. Ela abriu o envelope e disse cinco palavras que literalmente fizeram história: 'O vencedor é Sidney Poitier.' Subiu ao palco o homem mais elegante que eu jamais havia visto. Lembro que a gravata dele era branca, e é claro que sua pele era negra.

E eu nunca tinha visto um homem negro ser celebrado daquela forma. Muitas, muitas, muitas vezes tentei explicar o que um momento como aquele significa para uma garotinha – uma criança assistindo bem de longe, conforme minha mãe entrava pela porta cansada até os ossos após limpar as casas dos outros. Tudo o que posso fazer é citar e dizer que a explicação está na atuação de Sidney em 'Uma Voz nas Sombras': 'Amém, amém. Amém, amém.'

Em 1982, Sidney recebeu o prêmio Cecil B. DeMile aqui mesmo, no Globo de Ouro, e não ignoro que, neste momento, há garotinhas vendo eu me tornar a primeira mulher negra a receber este mesmo prêmio. É uma honra e um privilégio dividir essa noite com todas elas, e também com todos os homens e mulheres que me inspiraram, me desafiaram, me apoiaram e fizeram com que minha jornada até este palco fosse possível."

A importância da liberdade de imprensa.

"Gostaria de agradecer à Associação da Imprensa Estrangeira em Hollywood [responsável pelo Globo de Ouro], pois sabemos que a imprensa está sendo ameaçada atualmente. Mas também sabemos que é a insaciável dedicação a revelar a verdade absoluta que nos impede de fechar os olhos para a corrupção e a injustiça. Para os tiranos e as vítimas, os segredos e as mentiras. Quero dizer que valorizo a imprensa mais do que nunca neste momento em que tentamos navegar por tempos complicados."

A força das mulheres anônimas.

"Esta noite quero expressar minha gratidão a todas as mulheres que aguentaram anos de abuso e assédio, porque – como minha mãe – elas tinham crianças para alimentar, contas a pagar e sonhos a buscar. São as mulheres cujos nomes jamais conheceremos. São as trabalhadoras domésticas, as que trabalham em fazendas, fábricas, restaurantes; as que estão na academia, na engenharia, na medicina e na ciência; as que são parte do mundo da tecnologia, da política e dos negócios; são nossas atletas na Olimpíada e nossas militares no Exército."

As trajetórias de Recy Taylot e Rosa Parks.

"E elas são outra pessoa: Recy Taylor, um nome que eu conheço e que acho que você deveria conhecer também. Em 1944, Recy Taylor era uma jovem mãe, casada. Ela estava apenas andando para casa depois de ir à missa em Abbeville, Alabama, quando foi sequestrada por seis homens brancos armados, estuprada e deixada vendada à beira de uma estrada, voltando da igreja para casa.

Eles ameaçaram matá-la se ela contasse o que aconteceu, mas sua história chegou à N.A.A.C.P. [associação americana que defende os direitos dos negros], onde uma jovem trabalhadora chamada Rosa Parks tornou-se a principal investigadora do caso, e juntas elas buscaram justiça. Mas justiça não era uma opção na era Jim Crow. Os homens que tentaram destruí-la nunca foram indiciados.

Recy Taylor morreu há dez dias, perto de seu aniversário de 98 anos. Como todos nós, ela viveu anos demais em uma cultura quebrada por homens brutalmente poderosos. E por tempo demais as mulheres não foram ouvidas ou não se acreditou nelas quando ousaram falar sua verdade contra o poder destes homens. Mas o tempo deles acabou. O tempo deles acabou. O tempo deles acabou."

Um novo tempo para as mulheres.

"Quero que todas as garotas assistindo, aqui e agora, saibam que um novo dia está no horizonte. E que quando esse dia finalmente nascer, será por causa de muitas mulheres magníficas – muitas delas aqui neste salão. E alguns homens fenomenais, lutando duro para garantir que elas tornem-se as líderes que vão nos levar a um tempo em que ninguém mais precise dizer 'eu também'. Obrigada."

Assista ao vídeo com a íntegra do discurso (em inglês):